terça-feira, 13 de março de 2012

Olá, tudo bem?

Esta é provavelmente uma das perguntas que mais se ouve ao longo do dia. A maioria das vezes quase que soa a retórica, pode servir para começar uma conversa, ou apenas como cumprimento automático. Às vezes tenho alguma dificuldade em perceber qual a situação que se aplica. Ao que parece é um habito transversal a várias culturas, como que uma formula de manifestar interesse ou simplesmente para quebrar gelo.


Quando há real interesse em saber como está a outra pessoa, normalmente, após um "tudo bem?", vêm perguntas mais direccionadas, a pessoa continua ali para ouvir a resposta e continuar a conversa.

A verdade é que a maioria das pessoas faz a pergunta e não está minimamente interessada na resposta, espera apenas um "bem, obrigado", "sim ta tudo" ou "tudo e contigo". Ou então, se formos mais mornos e sair um "mais ou menos" ou "vai indo" o efeito é exactamente o mesmo. Mas claro, o ideal é que a resposta seja positiva. Eu admito que preferia não fazer nem responder a essa pergunta, quando de facto não se justifica ou soa a oco. Aliás, às vezes fico desconfortável quando alguém pergunta e não sei se é esperada uma versão abreviada ou mais elaborada como resposta.
Percebi, por experiência, que nalgumas situações não vale muito a pena responder de forma sincera à pergunta, que chatice, na verdade queriam nos falar sobre outra coisa qualquer e ainda têm que ouvir primeiro algumas lamentações ou manifestações de contentamento ou então simplesmente não ouvem e cortam o assunto. Quando me parece esse o caso, opto por um entusiasmado "estou óptima, está um dia fantástico e é muito bom ver-te por aqui!" Podem acreditar, funciona bem.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Alerta Kony

O sucesso do vídeo foi tal, que provavelmente já ouviram falar dele, em menos de uma semana contou mais de 70 milhões de visualizações. O objectivo do vídeo é tornar o ugandês Joseph Kony famoso e visível de a levar a justiça o líder do Exercito de Resistência do Senhor acusado crimes de guerra e contra a humanidade praticados ao longo de mais de 20 anos.

O objectivo principal da organização Invisible Children (California) é mobilizar o maior número de pessoas de forma a que a sua causa se torne uma causa de interesse nacional que force a intervenção militar norte-americana para deter Kony. Entre interesses políticos e económicos, diferenças culturais, mobilização de massas e impacto real alguma coisa se espera que resulte, ao menos que não haja indiferença.  



 

quinta-feira, 8 de março de 2012

Problemas psiquiátricos

O tema deste post esteve a marinar durante alguns dias. A controvérsia parece o prato do dia na ciência e no conhecimento em geral, para cada ideia que nos passa pela cabeça é quase certo que encontramos outras pessoas que a defendam e outras tantas que a refutem. Nem sempre há consenso e nem sempre é fácil separar evidencias puras de conclusões manipuladas.

Fala-se cada vez mais em doenças psiquiátricas, aparentemente tem-se verificado um aumento do numero de depressões e deprimidos, ansiedade, pânico e fobias. À parte do jornalismo sensacionalista, o aumento da procura de psicólogos e psiquiatras, bem como consumo de medicamentos põe eles prescritos tem aumentado quase exponencialmente. O que antigamente era um miúdo irrequieto, hoje talvez seja hiperactivo, um desamor ou desanimo poderá ser depressão e até os introvertidos já podem ser tratados. Eu reconheço que alguns estados são assunto sério e merecedores de atenção e tratamento clínico, mas também me parece que há muito tratamento e investimento farmacéutico completamente oportunista. A minha indignação poderia ficar por aqui, pois as pessoas são livres de comprar e tomar o que querem e acham melhor para si (embora a informação que lhes chega seja a maioria das vezes colocada a jeito), mas o problema é um pouco mais grave, tal como escreveu o jornalista Robert Whitaker no livro Anatomy of an Epidemic: Magic Bullets, Psychiatric Drugs, and the Astonishing Rise of Mental Illness in America (Crown 2010). O livro parte dos seguintes dados: 1987 1 em cada 184 americanos sofria de algum tipo de doença mental, em 2007 a taxa mais do que duplicou para 1 em cada 76 americanos. Curiosamente, no mesmo período houve um aumento considerável do uso de medicamentos psiquiátricos. Robert Whitaker queria averiguar se seria pura coincidência a incidência de doenças mentais e o do consumo de psicofarmacos terem aumentado significativamente no mesmo período ou se havia alguma ralação. A sua pesquisa levou-o a concluir que embora os medicação psiquiátrica possa ser efectiva num curto período de tempo, o seu uso continuado aumenta a probabilidade de desenvolver doenças crónicas, transformando um problema psicológico moderado numa incapacidade debilitante, sendo especialmente evidente e trágico em crianças. Segundo ele, este efeito verifica-se em todos os casos, desde alterações do estado de humor e ansiedade até a esquizofrenia. Alguns medicamentos podem ser benéficos numa fase inicial (não esquecendo que parte deles não são mais eficazes do que placebo), contudo há alterações irreversíveis a nível cerebral, que transformam pequenos distúrbios em condições de dependência de fármacos mais severas.

Do ponto de vista fisiológico parece-me bastante provável que estas observações tenham uma boa base de verdade e é fácil perceber quem sai a ganhar deste ciclo vicioso, contudo estou longe de ser especialista na área e a minha opinião vale o que vale. Não posso deixar de ficar apreensiva quando me parece que há um tratamento certo para tudo o que parece desviar-se do padrão (independentemente de quem decide qual o padrão normal) e pessoas com vontade de corrigir e tratar tudo e mais alguma coisa que não esteja de acordo com o "normal/ideal". É óbvio que há doenças psiquiátricas que requerem acompanhamento e tratamento, mas há muitos outros problemas que seriam melhor resolvidos se se desse margem/ajuda para as pessoas se conhecessem e aprendessem a lidar com os seus problemas em vez de esperar que um comprimido o faça.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Amigos

Ter amigos é relativamente fácil, ter bons amigos é um processo evolutivo sem um fim adquirido, sem compromisso real, apenas um pacto invisível. Com a fase do facebook, parece que todos temos muitos amigos, interessados nas fotos, nos estados, nas actualizações, nos aniversários ou em tudo o que mexe por lá, mas na verdade mais de 80% serão apenas conhecidos curiosos e a pequena parte que quer mesmo saber de nós, não o faz pelo facebook. A amizade é qualquer coisa de muito interessante, não há amigos iguais, mas há vários níveis de amizade, ninguém substitui ninguém, mas intuitivamente sabemos quais são as fronteiras, com quem podemos contar ou apenas juntar à festa.

Cada pessoa terá a sua definição de amizade. Para mim há os que gosto de rever em algumas circunstâncias e depois há os que fazem parte da mobília. Faz realmente sentido chamar amigo quando se dispensa formalidades, quando não é necessário um motivo para querer jantar ou combinar um café, quando podemos partilhar alegria, tristeza e tédio, quando o silencio não perturba, quando o olhar basta, quando é seguro perder a postura, quando podemos dizer o que realmente nos passa pela cabeça sem grandes restrições, quando nos encontramos depois de tanto tempo e é como se nos tivéssemos visto ontem.. É algo natural, é a pessoa que nos vem a cabeça quando estamos no pico e na vala, quando queremos partilhar o que quer que seja, com ou sem feedback, mas com a certeza de não haver julgamento.

Dizem que é provável termos mais de 30 "amigos" na década dos 20 anos. Aos 30 teremos 20, aos 40 teremos 10, e seremos sortudos se na velhice tivermos meia dúzia. De facto não é fácil. Criar laços requer tempo, paciência, compreensão, empatia e persistência de pelo menos dois lados. Há circunstâncias que facilitam a vida e promovem a aproximação das pessoas, há outras que põem a amizade á prova. Não é necessário estar em contacto permanente, não é necessário contar tudo ou fazer tudo em conjunto, apenas estar quando é preciso, saber o suficiente para compreender e fazer o essencial para marcar a diferença.

Fazer amigos é fácil, mantê-los requer alguma mestria. De tempos em tempos reencontro-me com alguns amigos e percebo que já não pertenço, que já não me pertencem. É uns sistema dinâmico que selecciona os melhores ou os que realmente precisamos.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Era biónica

"Technology has always strived to match the incredible sophistication of the human body. Now electronics and hi-tech materials are replacing whole limbs and organs in a merger of machine and man."

in National Geographic

Desengane-se quem pensa que já está tudo inventado. Estamos no inicio de uma nova era, chama-se bionica (bionics). Resulta do casamento entre vida (bio) e electronica (onics) e nasceu (por volta de 1950) do estudo dos sistemas mecânicos capazes de mimetizar organismos vivos ou partes de organismos. As proteses não são propriamente novidade, mas tem feito progressos incríveis. À medida que os cientistas avançam na criação de membros prostéticos capazes de comunicar com a mente, reproduzem-se capacidades que até agora só se viam no corpo humano intacto. A perfeição da maquina aproxima-se do humano, há um maior controlo e funcionalidade e já não é só ao nível dos membros, mas de quase tudo passível de ser substituído.

Recomendo darem uma vista de olhos neste artigo da BBC.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Placebo

Placebo é uma substância inerte, sem propriedades farmacológicas, administrado a uma pessoa ou grupo de pessoas, como se tivesse propriedades terapêuticas. Normalmente é utilizado para testar eficácia de fármacos por comparação, podendo ser administrados na forma de comprimido (normalmente composto por açucares), injecção, liquido ou procedimento que não afecta directamente a doença a ser tratada. Contudo, apesar de não actuarem na doença, parece terem efeito em 1 em cada 3 doentes, resultando na alteração dos sintomas. A duração dos efeitos é variável e pode reflectir-se na melhoria do estado de saúde, bem como no aparecimento de efeitos secundários_expectation effects. Ou seja a pessoa que toma o placebo acaba por sentir aquilo que tinha expectativa de sentir, para o bem e para o mal, obviamente que a expectativa varia consoante a situação e a meu ver tem um potencial fantástico (se calhar nem todas as pessoas deviam ler a bula dos medicamentos, com tanto efeito adverso descrito não há como não ficar sugestionado). Por outro lado, o efeito placebo também é apontado como responsável pelos créditos de tratamentos sem eficácia comprovada clinicamente (acumpultura, ultra-sons, cirurgias espirituais..)
 Provavelmente haverá pessoas/doenças mais susceptíveis ao efeito placebo.

Nos últimos tempos vários estudos confirmaram a eficácia de tratamentos placebo em quase todas as áreas da medicina, nomeadamente no alivio da dor, depressão, ansiedade, doença de Parkinson, doenças inflamatórias e até no cancro. O efeito placebo deve-se não só à consciência de que se está a tomar um medicamento, mas também à associação subconsciente entre a recuperação e a experiência de estar a ser tratada, por exemplo o facto de se sentir melhor só porque foi visto/ouvido por um médico.

Vale a pena ver este vídeo sobre o efeito placebo. É incrível como manipulações tão simples da nossa percepção tem efeitos tão significativos. Por outro lado acredito uma alguns dos "medicamentos" que a industria farmaceutica ou outras anunciam têm uma boa dose de placebo, o que é compreensível, seria parvo desperdiçar uma formula tão eficaz.



quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Cativar

Ontem ouvia uma conversa numa radio qualquer sobre os livros do plano nacional de leitura enquanto olhava impacientemente para o vermelho do semáforo. Não sei o que eles lêem hoje em dia, lembro-me vagamente de alguns que eu li, como é o caso d' O principezinho. Tal como como a maioria dos livros infantis, ou talvez não tanto infantis, a história que se quer contar não se resume apenas ao que está escrito, mas conta com a imaginação própria de cada um para lhe dar o sabor que quiser. Não me lembro se na altura percebi o que lia, mas de facto vale a pena voltar a ler! Deixo aqui um pequena parte de um capitulo, esta não é bem uma versão oficial, tem apenas algumas partes..


O principezinho


... Julgava-me muito rico por ter uma flor única no mundo e, afinal só tenho uma rosa vulgar...

Foi então que apareceu uma raposa .

- Olá, bom dia! disse a raposa.

- Olá, bom dia! - Respondeu delicadamente o principezinho...

- Anda brincar comigo - pediu o principezinho. Estou tão triste...

- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Ainda ninguém me cativou...

- Ah! desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:

- Que quer dizer "cativar"?

- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?

- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?

- É uma coisa um pouco esquecida, diz a raposa. Significa criar laços...

- Criar laços?

- Exactamente, diz a raposa, Tu para mim não passas de um rapazinho, igual a cem mil outros. Eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo e eu serei para ti, única no mundo...

- Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? ... não me fazem lembrar de nada. É uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então quando eu estiver cativada por ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti...

- Só conhecemos as coisas que cativamos - disse a raposa. - Os homens, agora já não tem tempo para conhecer nada. Compram as coisas feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não tem amigos. Se queres um amigo, cativa-me!

E o que é preciso fazer? - Perguntou o principezinho.

- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada . A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar mais perto...

Se vieres sempre ás quatro horas, ás três já eu começo a ser feliz...

Foi assim que o principezinho cativou a raposa. E quando chegou a hora da despedida:

- Ai! - exclamou a raposa - Ai que me vou pôr a chorar!

- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...

- Quis, disse a raposa.

- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.

- Vou, disse a raposa.

- Então não ganhaste nada com isso!

- Ganhei, disse a raposa, por causa da cor do trigo.

Depois acrescentou:

- Anda vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. 


Antoine de Saint-Exupéry in O principezinho