O tema deste post esteve a marinar durante alguns dias. A controvérsia parece o prato do dia na ciência e no conhecimento em geral, para cada ideia que nos passa pela cabeça é quase certo que encontramos outras pessoas que a defendam e outras tantas que a refutem. Nem sempre há consenso e nem sempre é fácil separar evidencias puras de conclusões manipuladas.
Fala-se cada vez mais em doenças psiquiátricas, aparentemente tem-se verificado um aumento do numero de depressões e deprimidos, ansiedade, pânico e fobias. À parte do jornalismo sensacionalista, o aumento da procura de psicólogos e psiquiatras, bem como consumo de medicamentos põe eles prescritos tem aumentado quase exponencialmente. O que antigamente era um miúdo irrequieto, hoje talvez seja hiperactivo, um desamor ou desanimo poderá ser depressão e até os introvertidos já podem ser tratados. Eu reconheço que alguns estados são assunto sério e merecedores de atenção e tratamento clínico, mas também me parece que há muito tratamento e investimento farmacéutico completamente oportunista. A minha indignação poderia ficar por aqui, pois as pessoas são livres de comprar e tomar o que querem e acham melhor para si (embora a informação que lhes chega seja a maioria das vezes colocada a jeito), mas o problema é um pouco mais grave, tal como escreveu o jornalista Robert Whitaker no livro Anatomy of an Epidemic: Magic Bullets, Psychiatric Drugs, and the Astonishing Rise of Mental Illness in America (Crown 2010). O livro parte dos seguintes dados: 1987 1 em cada 184 americanos sofria de algum tipo de doença mental, em 2007 a taxa mais do que duplicou para 1 em cada 76 americanos. Curiosamente, no mesmo período houve um aumento considerável do uso de medicamentos psiquiátricos. Robert Whitaker queria averiguar se seria pura coincidência a incidência de doenças mentais e o do consumo de psicofarmacos terem aumentado significativamente no mesmo período ou se havia alguma ralação. A sua pesquisa levou-o a concluir que embora os medicação psiquiátrica possa ser efectiva num curto período de tempo, o seu uso continuado aumenta a probabilidade de desenvolver doenças crónicas, transformando um problema psicológico moderado numa incapacidade debilitante, sendo especialmente evidente e trágico em crianças. Segundo ele, este efeito verifica-se em todos os casos, desde alterações do estado de humor e ansiedade até a esquizofrenia. Alguns medicamentos podem ser benéficos numa fase inicial (não esquecendo que parte deles não são mais eficazes do que placebo), contudo há alterações irreversíveis a nível cerebral, que transformam pequenos distúrbios em condições de dependência de fármacos mais severas.
Do ponto de vista fisiológico parece-me bastante provável que estas observações tenham uma boa base de verdade e é fácil perceber quem sai a ganhar deste ciclo vicioso, contudo estou longe de ser especialista na área e a minha opinião vale o que vale. Não posso deixar de ficar apreensiva quando me parece que há um tratamento certo para tudo o que parece desviar-se do padrão (independentemente de quem decide qual o padrão normal) e pessoas com vontade de corrigir e tratar tudo e mais alguma coisa que não esteja de acordo com o "normal/ideal". É óbvio que há doenças psiquiátricas que requerem acompanhamento e tratamento, mas há muitos outros problemas que seriam melhor resolvidos se se desse margem/ajuda para as pessoas se conhecessem e aprendessem a lidar com os seus problemas em vez de esperar que um comprimido o faça.
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