segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Nostalgia

Definitivamente não percebo a história da nostalgia. Inicialmente era considerada doença, o nome deriva do grego "nostos"-voltar e "algos"-dor, indicando o sofrimento proveniente desejo de voltar ao local de origem. As primeiras observações deste sentimento foram registadas em viajantes e militares. Mais tarde ganhou um sentido mais positivo, sendo considerada apaziguadora, acredita-se que recordar tempos passados melhora o humor, aumenta a auto-estima e fortalece ligações sociais trazendo algum sentido à vida. A BBC fez um artigo interessante sobre o assunto, no qual descreve a opinião de Mr Routledge e outros entendidos em nostalgia. Eles defendem que a nostalgia nos permite recordar experiências marcantes relembrando-nos o sentido e o propósito da vida, o nosso valor, as boas relações que desenvolvemos e momentos em que fomos felizes. Teremos tendência para ficar mais nostálgicos em situações menos favoráveis, quando nos sentimos mais desamparados, sendo que o acto de recordar tem como função contrariar os sentimentos negativos. Há varias situações que nos podem deixar nostálgicos, desde o contacto com pessoas ou objectos de outros tempos, como musicas, acontecimentos, palavras, etc.  Claro que se passarmos demasiado tempo presos ao passado corremos o risco de passar ao lado das oportunidades do presente e do futuro. Também aqui se aplica a noção de equilíbrio.

Da minha experiência ainda não consegui perceber se a nostalgia tem um efeito positivo ou negativo. Nalgumas circunstâncias é apenas um pouco inquietante. Tenho alguma dificuldade em me livrar de certas coisas, gosto de guardar objectos (maioria das vezes papelada) que me recordem de acontecimentos marcantes, não que lhes faça alguma coisa, às vezes ficam só num canto até que a necessidade de arrumar e me livrar deles me faça deitá-los fora. Parece que com o tempo a relevância e intensidade das emoções diminui, logo já não faz sentido guardar eternamente o que deixou de ter utilidade. Por outro lado, guardar dá-me alguma segurança, a certeza de que mesmo que a memória me traia haverá sempre um gatilho que me faça chegar lá. Não costumo procurar deliberadamente recordações, normalmente encontro-as durante as arrumações, algumas são agradáveis, outras só me relembram a ingenuidade de outros tempos. Se calhar ainda não estou na fase em que a nostalgia faz coisas giras. Mais estranho é quando tenho que apagar emails ou mensagens, a plena consciência de que não voltarão a ser úteis ou trarão algo de volta, mas por alguma razão preferia guardar. Da minha experiência, também sei que quando apago simplesmente não me sinto menos inteira.

Perder a memória é provavelmente uma das coisas mais assustadoras para a maioria das pessoas. Ficar nostálgico é quase inevitável em algumas circunstâncias, mas não nos devemos perder demasiado nas recordações, é bom constatar que já tivemos menos preocupações e mais alegrias, que já passamos por tempos difíceis e sobrevivemos, que fique a certeza que daí a uns tempos vamos recordar esse preciso momento e recordar que foi mais um passo, às vezes é preciso deixar algumas coisas para trás para chegarmos ao que procuramos.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Miragem ou liberdade

Upside-down bird. National Geographic

Ultimamente tenho tido algum tempo livre, mais do que habitual. Tempo livre por não ter obrigação externa de fazer nada com ele, por ter a liberdade de o ocupar com o que bem me apetecer, nem que seja para questionar o nível de liberdade a que me permito nesse tempo livre.

Os seres humanos são considerados animais sociais com inteligência avançada capazes de fazer escolhas e guiar o seu comportamento de forma complexa. Para além da influencia das circunstâncias, o comportamento humano é modelado por influencias internas, tais como expectativas, motivações e ideias de si. Desta forma, temos a capacidade de controlar o nosso comportamento de acordo com objectivos que queremos atingir mediante as oportunidades e obstáculos impostos pelo mundo social. A liberdade reside na capacidade de resistir a influencias especificas tais como pressões externas ou impulsos internos  na tomada de decisões. Não vivemos isolados, por isso é óbvio que as nossas decisões e o nosso comportamento têm que ter em conta o contexto social, a liberdade dos outros e o comprometimento entre esforço/trabalho e beneficio. Somos convidados a ceder a determinados impulsos com vista a sermos aceites pela sociedade, frequentemente confunde-se liberdade com a autonomia para imitar as massas. Todos somos "livres", mas todos esperam que nos comportemos de acordo com o padrão, ideia do aceitável e ideal que mais ou menos impomos a nós mesmos com vista à aprovação, ao enquadramento, ao sentimento de pertença. Em certa medida somos escravos de necessidades e objectivos, que, pensamos nós, somos livres para seguir ou não. É bom ter sonhos e objectivos no horizonte, o mau é quando não são os nossos ou o que melhor nos servem. Não sei onde fica o ideal, mas penso que se não nos permitir ser autênticos nas maneiras e nas escolhas não nos trará liberdade suficiente para sermos felizes.


Pelo caminho encontrei algumas reflexões interessantes sobre o assunto. Tomei a liberdade de "copiar" para aqui:

"Se examinarmos um indivíduo isolado sem o relacionarmos com o que o rodeia, todos os seus actos nos parecem livres. Mas se virmos a mínima relação entre esse homem e quanto o rodeia, as suas relações com o homem que lhe fala, com o livro que lê, com o trabalho que está fazendo, inclusivamente com o ar que respira ou com a luz que banha os objectos à sua roda, verificamos que cada uma dessas circunstâncias exerce influência sobre ele e guia, pelo menos, uma parte da sua actividade. E quantas mais influências destas observamos mais diminui a ideia que fazemos da sua liberdade, aumentando a ideia que fazemos da necessidade a que está submetido." Leon Tolstoi, in 'Guerra e Paz'

 "É mais difícil ser livre do que puxar a uma carroça. Isto é tão evidente que receio ofender-vos. Porque puxar uma carroça é ser puxado por ela pela razão de haver ordens para puxar, ou haver carroça para ser puxada. Ou ser mesmo um passatempo passar o tempo puxando. Mas ser livre é inventar a razão de tudo sem haver absolutamente razão nenhuma para nada. É ser senhor total de si quando se é senhoreado. É darmo-nos inteiramente sem nos darmos absolutamente nada. É ser-se o mesmo, sendo-se outro. É ser-se sem se ser. Assim, pois, tudo é complicado outra vez.Vergílio Ferreira, in 'Nítido Nulo'


"A vossa vontade não é livre mas as vossas acções o são. Tendes a liberdade de fazer quando tendes o poder de fazer." Voltaire, in 'Dicionário Filosófico'

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Amadurecer ideias

Há ideias que precisam de amadurecer antes de ser completamente entendidas. Quando nos deparamos com um conceito novo, mais complexo, eventualmente diferente daquilo a que estamos habituados precisamos de algum tempo para "digerir" e assimilar a informação. Nem sempre a noção com que ficamos de inicio se revela a mais fiel ou adequada, nada como dormir sobre o assunto, para termos uma visão mais clara. Com os sentimentos passa-se a mesma coisa.

Costuma-se dizer que a primeira impressão é decisiva, mas embora comece sempre por aí, cada novo contacto é uma nova oportunidade de observar, confirmar, completar ou corrigir a ideia que temos de alguém. É automático e a maioria das vezes inconsciente, como se estivéssemosem modo "update" constante. Decidimos se gostamos ou não, se nos identificamos, se a companhia é agradável ou nos deixa desconfortáveis, se nos acrescenta ou entretém. Decidimos se seria útil continuar a interacção ou se é preferível evitar. A maioria das vezes não fazemos nada quanto a isso, fica apenas arquivado para posterior "consulta". Eventualmente percebemos que apreciamos a companhia e começamos a organizar a agenda de forma a incluir planos que proporcionem interacção, queremos repetir eventos que correram bem e experimentar novos contextos. Estamos na fase de amadurecer a ideia. O resultado não depende inteiramente da observação simples, mas passa a basear-se e alimentar-se do feedback. Temos um conjunto de ideias e teorias que precisamos de validar ou refutar. Enquanto se assimila nova informação há um confronto com as noções pré formadas. Há sempre margem para a imaginação e a interpretação de acontecimentos enviesada, convém não perder completamente a lógica.

Depois do processo de amadurecimento analisam-se os resultados, balanço positivo ou negativo, pensasse no que se poderá seguir. Nesta altura já devemos ter uma ideia mais clara do que vimos, do que sentimos, do que queremos. Não se pode dizer que a fase de amadurecimento tem um fim, é um processo que estará mais ou menos presente ao longo do percurso. Não é algo que consigamos fazer a distancia, é preciso a interacção, fazer as perguntas e obter as respostas. Não devemos ter a pretensão de querer controlar ou seguir um plano, continuo a achar que a ausência de plano pode ser o melhor plano.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Efeito dominó

Quando me falaram do plano pareceu-me bem, mas depois de feito pare-me ainda melhor. Começou com alguém a querer doar um rim a um desconhecido e no final contaram-se 30 transplantes realizados em 17 hospitais de 11 estados dos E.U.A.

Há várias doenças que podem resultar em insuficiência renal e consequente necessidade de hemodiálise ou preferencialmente transplante. A quantidade de dadores e dificuldade em encontrar compatibilidade fazem com que a lista de espera varie entre 5 a 10 anos, na maioria das vezes tempo demais. Nalguns casos há familiares/amigos interessados em doar um rim ao doente, mas mesmo dentro da família, podem não ser compatíveis. A oportunidade surgiu quando alguém decidiu doar um rim a um desconhecido. Este acto, juntamente com o cruzamento de informação médica entre doentes e possíveis dadores permitiu que se iniciasse uma cadeia de transplantes de rim com efeito dominó, como representado na figura (retirada deste site).

 
http://www.uclahealth.org/images/news/TransplantIllustration-2.jpg

 A cadeia da dadores tem como objectivo aumentar o numero de dadores, permitindo que as pessoas que quisessem doar um órgão a um familiar ou amigo mas não fossem compatíveis, pudessem doar a outro doente em troca de um órgão compatível para o seu familiar. Inicialmente precisa de um dador voluntário, mas a partir daí propaga-se em efeito dominó até ao ponto em que o ultimo receptor não tenha ninguém conhecido que possa doar um órgão em troca, por razões médicas por exemplo, terminando assim  a cadeia. Pelo meio, é necessário o cruzamento de informação para encontrar possíveis receptores e dadores de forma a permitir o maior numero de transplantes. Neste caso foram 30 transplantes, com 60 pessoas envolvidas, tudo isto em alguns meses. Este novo modelo de "gestão" de órgãos, aliado a novas técnicas de transplante, menos invasivas, permite diminuir drasticamente o tempo necessário para encontrar um dador compatível.

O principio de funcionamento do plano é simples e os benefícios óbvios. Hajas pessoas capazes de iniciar cadeias como esta, quer pela parte do planeamento e execução quer pela doação de órgãos, neste caso, um rim.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Matemática para horas críticas

O argumento não é descabido e pode até ter alguma utilidade. Em Outubro de 2008 (ok, já foi há uns tempos, mas infelizmente só descobri ontem) a Google lançou a opção mail googles, cuja função é apenas impedir que se enviem emails disparatados em alturas mais sensíveis, nomeadamente aqueles em que a probabilidade de nos virmos a arrepender é mais elevada. Por defeito, esta opção fica activa entre as 22 e 4 da manha de sexta e sábado, mas pode ser configurada consoante os hábitos de cada um. Quando tentamos enviar um e-mail a essas horas apresenta um conjunto de contas simples que temos de responder num período limitado de tempo para garantir que estamos a conseguir raciocinar minimamente e é seguro enviar o e-mail.

Costumo pensar que temos vários filtros através dos quais uma ideia tem de passar antes de ser expressa, pelo caminho pesamos prós e contras da acção de forma a atingir o efeito pretendido com o mínimo de danos possíveis. Mas lá está, nalgumas alturas os filtros tiram férias e quando damos por isso já foi, resta reconhecer os estragos e elaborar plano de minimização de danos e recuperação. É curiosa a escolha das horas em que supostamente estamos mais susceptíveis a dizer o que não devemos, mas têm a sua lógica, quer pelo factor alcool, como por ser a altura em que há uma quebra na rotina e temos mais tempo livre para pensar e concretizar planos, mesmo que idiotas.

Um outro ponto interessante trata-se da escolha de exercícios aritméticos para prevenir o envio de emails emocionais. Para além das contas constituírem uma barreira para estados de embriaguez por exemplo, em que as pessoas ficam com tendência para as revelações impulsivas, alguns estudos demonstram que realizar tarefas cognitivas diminui a intensidade de respostas emocionais negativas e eventualmente ajuda a colocar as ideias numa perspectiva mais neutra. Ou seja mesmo que as pessoas façam as contas no tempo previsto, o facto de se terem concentrado noutra tarefa pode fazer com que se sentam menos tentadas a enviar o email e a fazer outra abordagem à situação.

Tal como eu já disse algures, o organismo tem capacidades e recursos limitados, focar a atenção noutro assunto pode ser uma manobra eficaz de distracção. Há uns anos atrás uma professora percebeu o nosso pânico ao olhar para um livro de 4 kg (ela não se limitou a apresentar o livro e os autores, forneceu-nos todo o tipo de informação relativo às dimensões) que teríamos que transformar no nosso melhor amigo durante 6 meses e calmamente disse que para além dos benefícios directos relacionados com a aprendizagem, se trabalhássemos a todo o gás, não teríamos tempo para deprimir, logo não tínhamos nada a temer. Pouco mais tarde percebi, que a trabalhar aquele ritmo, não só não deprimia, como não tinha tempo para grandes lamechices ou preocupações secundárias. Ela não só tinha razão como nos tinha dado o antídoto para um mal que aflige uma boa parte da população. Obviamente que têm efeitos secundários a curto e a longo prazo, será sempre um equilíbrio entre ganhos e perdas.

Não sou apologista de andar constantemente atafulhada em trabalho ou outras distracções que desviem completamente da componente emocional, mas a abordagem da Google parece-me interessante, talvez devessem pensar em aplicar um sistema semelhante às mensagens por telemóvel.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Perigo da história única



The single story creates stereotypes, and the problem with stereotypes is not that they are untrue, but that they are incomplete. They make one story become the only story. — Chimamanda Ngozi Adichie

A ideia não é nova nem novidade, mas continua a falhar muitas vezes na interpretação que fazemos da informação que nos chega. Tal como Chimamanda refere torna-se um problema sério quando a única história que chega a um conjunto de pessoas é particularmente focada em aspectos negativos e limitações. Se não acreditam experiementem perguntar a alguém o que acha do estado do país, das pessoas em geral, da maneira de ser, do seu trabalho e empenho. Já nem me refiro à realidade dos países Africanos..Temos tendência para catalogar tudo e quanto menos sabemos do que se passa maior a margem para a especulação e generalização, sendo que nem nos passa pela cabeça que a ideia ou história que conhecemos pode não ser, de todo, a única, a mais representativa ou fiel à situação.

Os meios de informação assumem obviamente um papel central neste ciclo, as histórias são seleccionadas, contadas da forma e na altura mais conveniente e muitas vezes quem as recebe nem quer ir mais além. Para além da nossa capacidade/vontade de estereotipagem há a manipulação da opinião pública, das reacções e intervenções.

Basear a nossa opinião apenas numa história é ignorância, cobardia e claramente injustiça. É preciso mais do que uma versão, mais do que uma perspectiva para que a nossa visão se aproxime o mais possível do que realmente acontece.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Post semi lamechas

No dia em que se celebra o amor, tenho de expressar a minha admiração pelos que o entendem e o cultivam, pois está mais do que provado não ser tarefa fácil, tal como Fernando Pessoa tão bem soube dizer.


"É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?

Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma

Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
 
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo."