sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Matemática para horas críticas

O argumento não é descabido e pode até ter alguma utilidade. Em Outubro de 2008 (ok, já foi há uns tempos, mas infelizmente só descobri ontem) a Google lançou a opção mail googles, cuja função é apenas impedir que se enviem emails disparatados em alturas mais sensíveis, nomeadamente aqueles em que a probabilidade de nos virmos a arrepender é mais elevada. Por defeito, esta opção fica activa entre as 22 e 4 da manha de sexta e sábado, mas pode ser configurada consoante os hábitos de cada um. Quando tentamos enviar um e-mail a essas horas apresenta um conjunto de contas simples que temos de responder num período limitado de tempo para garantir que estamos a conseguir raciocinar minimamente e é seguro enviar o e-mail.

Costumo pensar que temos vários filtros através dos quais uma ideia tem de passar antes de ser expressa, pelo caminho pesamos prós e contras da acção de forma a atingir o efeito pretendido com o mínimo de danos possíveis. Mas lá está, nalgumas alturas os filtros tiram férias e quando damos por isso já foi, resta reconhecer os estragos e elaborar plano de minimização de danos e recuperação. É curiosa a escolha das horas em que supostamente estamos mais susceptíveis a dizer o que não devemos, mas têm a sua lógica, quer pelo factor alcool, como por ser a altura em que há uma quebra na rotina e temos mais tempo livre para pensar e concretizar planos, mesmo que idiotas.

Um outro ponto interessante trata-se da escolha de exercícios aritméticos para prevenir o envio de emails emocionais. Para além das contas constituírem uma barreira para estados de embriaguez por exemplo, em que as pessoas ficam com tendência para as revelações impulsivas, alguns estudos demonstram que realizar tarefas cognitivas diminui a intensidade de respostas emocionais negativas e eventualmente ajuda a colocar as ideias numa perspectiva mais neutra. Ou seja mesmo que as pessoas façam as contas no tempo previsto, o facto de se terem concentrado noutra tarefa pode fazer com que se sentam menos tentadas a enviar o email e a fazer outra abordagem à situação.

Tal como eu já disse algures, o organismo tem capacidades e recursos limitados, focar a atenção noutro assunto pode ser uma manobra eficaz de distracção. Há uns anos atrás uma professora percebeu o nosso pânico ao olhar para um livro de 4 kg (ela não se limitou a apresentar o livro e os autores, forneceu-nos todo o tipo de informação relativo às dimensões) que teríamos que transformar no nosso melhor amigo durante 6 meses e calmamente disse que para além dos benefícios directos relacionados com a aprendizagem, se trabalhássemos a todo o gás, não teríamos tempo para deprimir, logo não tínhamos nada a temer. Pouco mais tarde percebi, que a trabalhar aquele ritmo, não só não deprimia, como não tinha tempo para grandes lamechices ou preocupações secundárias. Ela não só tinha razão como nos tinha dado o antídoto para um mal que aflige uma boa parte da população. Obviamente que têm efeitos secundários a curto e a longo prazo, será sempre um equilíbrio entre ganhos e perdas.

Não sou apologista de andar constantemente atafulhada em trabalho ou outras distracções que desviem completamente da componente emocional, mas a abordagem da Google parece-me interessante, talvez devessem pensar em aplicar um sistema semelhante às mensagens por telemóvel.

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