sexta-feira, 30 de março de 2012

Coisa de cientistas

Eu costumo dizer que os cientistas são pessoas estranhas. Normalmente têm uma visão das coisas muito caracteristica e algo desfasada da do comum dos mortais. Tornam-se mais insensíveis (ou menos impressionáveis) face ao seu objecto de estudo, tudo tem uma razão de ser, é algo natural, é ciência!

Gunther Von Hagens, também conhecido com Dr. Death, é provavelmente um dos anatomistas mais conhecidos e ousados de toda a história. Foi o inventor do processo de plastinação que permite preservar tecidos biológicos através da injecção de resina. Desde 1970 apresentou várias exposições um pouco por o planeta, do seu trabalho resultaram corpos sem pele em várias posições, tais como a correr, saltar, tocar instrumentos e até mesmo em posições sexuais. A sua forma de trabalhar é bastante controversa, os críticos apelam ao respeito pela morte, ele simplesmente quer explorar todo o potencial do corpo humano após a morte. Nunca antes tinha sido possível observar o corpo desta forma.

"Gunther Liebchen is a personality who does not approach tasks systematically. This characteristic and his imaginativeness, that sometimes let him forget about reality, occasionally led to the development of very willful and unusual ways of working-but never in a manner that would have harmed the collective of his seminary group. On the contrary, his ways often encouraged his fellow students to critically review their own work." 

Sim, os cientistas são estranhos, às vezes é preciso alguma dose de loucura para o impensável acontecer.

Body Worlds

terça-feira, 27 de março de 2012

Facebook e entrevistas de emprego

De um modo geral há apenas 3 questões que importa apurar numa entrevista de emprego: se o candidato tem as competências necessárias para o cargo (hard and soft skills), se o trabalho se adequa ao candidato (ou seja se ele se vai sentir realizado e se vai querer dedicar-se ao seu melhor nível), e se o candidato tem uma personalidade/feitio passível de ser suportado pela restante equipa/empregador. Haverá certamente várias formas de apurar as respostas, mas numa altura em que toda a gente partilha tudo e mais alguma coisa de livre e expontânea vontade com o seu grupo de amigos e não só, algumas empresas começaram a perceber que era uma oportunidade a não desperdiçar.

Começaram por se interessar por sites pessoais e perfis no facebook. As politicas de privacidade aumentaram e já há quem ache aceitável pedir o nome de utilizador e a palavra pass para dar uma olhadela, como foi o caso reportado por Justin Bassett. A história pode ser lida aqui ou aqui. O facebook não parou de evoluir desde que apareceu e está cada vez mais eficiente a reunir e organizar todo o tipo de informação sobre aquilo que gostamos, fazemos ou pensamos. Claro que cada um é livre de lhe dar o uso que bem entende, embora não falte por aí gente sem noção do potencial da informação que lá disponibiliza. Por outro lado é claramente um abuso de poder por parte de quem faz a entrevista de emprego, que quer saber muito mais do que aquilo que é necessário para o efeito, e o candidato, enquanto entrevistado pode não estar assim tão a vontade em por à disposição de análise pormenores da sua vida pessoal que pouco ou nada terão a ver com o seu profissionalismo e capacidade de trabalho. Afinal é isso que está em causa, certo? Há uns tempos falou-se na necessidade dos jovens (no caso referiam-se aos americanos) mudarem de nome na altura da transição da vida académica para a laboral, de forma a não comprometerem as suas hipóteses de arranjar trabalho, eu começo a achar que têm é de criar vários perfis conforme o tipo de trabalho a que querem concorrer, quem sabe pode ser um factor de impacto positivo na entrevista, ou então também podem pensar duas vezes antes de fazer asneira ou partilhar demasiada informação, o que seria revelador de alguma inteligência.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Homem, sofrimento e amor



"O homem é do tamanho do sofrimento que for capaz de suportar por amor." 
Assim começava a crónica do desassossego de José Luís Nunes Martins. Li e voltei ao inicio, a frase está bem conseguida, mas não me consegui decidir se concordo ou se não passa de uma forma floreada de justificar a dor ou de justificar a "esperança que ilumina os sonhos".

A vontade de encontrar um sentido ou uma razão para os acontecimentos da vida ou mesmo para a própria vida é a ambição básica da condição humana. Reconforta, acalma, diminui a revolta e a ansiedade, acreditamos que há uma boa razão para nos pormos à prova face às adversidades, acreditamos que o esforço será recompensado, que depois da dor virá a graça. Afinal são as nossas experiências e histórias que nos moldam a maneira de ser, que nos fortalecem e dão confiança, aquilo que nos faz sofrer também nos torna mais fortes. É preciso sentir a ausência para melhor apreciar a presença. No amor também é assim. Embora às vezes se diga que só é possível amar plenamente quando não se espera nada em troca, não me parece assim tão linear. Ao nível mais básico o simples facto de amar alguém é apaziguador, engrandece a visão que temos de nós mesmos, o culminar do amor reside na sua reciprocidade, que embora nem sempre seja exigida à partida, provavelmente é o seu melhor alimento.

Há pessoas que escolhemos amar, ou amamos por acaso, há outras que nos foram "impostas", a quem se espera que aprendamos a amar, neste caso refiro-me á família. Amar um familiar próximo é fácil porque é natural, há uma ligação mais forte do que o acaso, protegemos ou/e somos protegidos, sentimos dever de amar ou gratidão manifesta na forma de amor. É difícil porque é exigente, é exaustivo, é até ao limite, porque muitas vezes implica passarmos-nos para segundo ou terceiro plano, sabendo que não seriamos capazes de fazê-lo de outra forma. Suportamos a dor, sem por em causa os nossos sentimentos. Nem tudo são rosas, nem sempre é assim, há casos em apenas se gosta ou se suporta a convivência e não somos capazes de amar, não fomos capazes de conhecer ou conhecemos bem demais, noutros ainda, nem se suporta, mas a circunstância assim o obriga.

A maneira como somos amados influencia a nossa capacidade de amar, quer a família quer as pessoas que se cruzam connosco durante a vida, influencia a nossa capacidade de "suportar o sofrimento por amor".

Continuo sem saber se concordo com a frase inicial. Talvez seja um problema de definições, a noção de sofrimento e de amor, cada um tem a sua ou então ainda não sei nada sobre o amor.

sexta-feira, 23 de março de 2012

As faces do Ácool

Há quem o refira como o produto de uma das primeiras reacções químicas a serem estudadas pelo Homem. Talvez por ser tão antigo, o seu consumo esteja tão enraizado na cultura da maioria dos países, é considerado uma droga de abuso legal. Está à disposição em diferentes tipos de bebidas, consoante o gosto, a ocasião e a finalidade. É socialmente aceite beber álcool até determinados níveis e nalguns casos pode até ser incentivado por questões médicas (o copinho de tinto à refeição), o segredo continua na quantidade e nas razões porque se consome. Ninguém vê grandes problemas no consumo de álcool em momentos de socialização, bebe-se pelo gosto, pelo efeito ou pela ocasião. Desde que a noção de limites/responsabilidade esteja presente nenhum grande mal vem ao mundo por isso. Haverá dias ou noites mais entusiasmados em que se está dispostos a testar um novo limite ou simplesmente deixa-se ir na onda para ver no que dá. Normalmente resulta em meia dúzia de figurinhas tristes que com sorte o protagonista nem vai lembrar, se for num ambiente mais ou menos controlado e em boa companhia, ficará meia história para contar um bela dor de cabeça no dia seguinte.

O verdadeiro problema, do meu ponto de vista, é quando a bebedeira pura se torna demasiado frequente, quando, se perde o controlo completo, quando passa a ser uma necessidade e um pré-requisito para a noite "resultar", seja lá o que isso signifique. Mas é óbvio que há questões bem mais importantes que daí podem resultar, uma simples bebedeira ou apenas 2 ou 3 copos pode ser o gatilho para muita coisa, inclusive os tão relatados acidentes de viação, já para não falar nos efeitos a longo prazo.

As noticias dos últimos tempos relatam que o consumo desenfreado de álcool ou aumento do numero de alcoólicos, tem-se revelado um desfio ao sistema de saúde no Reino Unido, ao ponto de considerarem necessário adoptar novas medidas que ajudem a reduzir o seu consumo. Para além dos perigos imediatos do elevado consumo de álcool, há consequências a longo prazo, há um preço. É engraçado pensar na evolução do tipo de consumo, há quem beba para aquecer, para desinibir, para divertir, para esquecer e para cair para o lado.


Este video no Youtube resume alguns dos efeitos do álcool no organismo, nomeadamente no cérebro, algures entre a componente didatica e de responsabilização.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Procrastinação estruturada

". . . anyone can do any amount of work, provided it isn't the work he is supposed to be doing at that moment." -- Robert Benchley, in Chips off the Old Benchley, 1949

Depois de identificar o problema nada como arranjar uma solução com um potencial razoável de ser bem sucedida!

Chama-se teoria da procrastinação estruturada, descrita por John Perry, professor de filosofia na universidade de Stanford e defende que para ser um empreendedor de sucesso é necessário trabalhar em algo importante de forma a evitar fazer algo ainda mais importante. Confuso? Talvez. Mereceu o prémio Ignobel da literatura em 2011.

O artigo completo, "How to procrastinate and still get things done", pode ser lido aqui aqui.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Não fazer nada

"To do nothing at all is the most difficult thing in the world, the most difficult and the most intellectual."
Oscar wild

Antes de escrever a minha opinião sobre a arte de não fazer nada tenho que fazer uma pequena declaração de interesses. Não costumo reler os posts que escrevo, quando o faço, tenho vontade de alterar, acrescentar ou tirar coisas, a maneira como acho que devem ser ditas ou escritas as coisas muda, prefiro não reler. Quando escrevo tento ser fiel às ideias em que acredito, não tenho nenhum outro interesse, é apenas a minha opinião, não me responsabilizo se for confuso, contraditório, estranho ou sem muita lógica, eu às vezes consigo ser tudo isso e ainda sobra tempo.

Uma das coisas que eu me lembro de fazer bem quando era miúda, era ficar sem fazer nada, de preferência deitadinha na erva de olhar fixo nas folhas de uma árvore ou no céu. Não sentia o mínimo remorso de não fazer nada, nem vontade de ocupar o meu tempo de outra forma. À medida que fui crescendo deixei de ter tempo para não fazer nada. Entre o estudo, brincadeiras, leitura, trabalhos domésticos e planos, havia sempre alguma coisa para fazer, tal como há hoje. 

De forma geral toda a gente gosta de se sentir ocupado, ter planos para o tempo que sobra e se mesmo assim sobrar, certamente um pc, televisão ou telemóvel será uma boa solução. A necessidade de estar ocupado aumenta quando somos confrontados com pensamentos ou sentimentos desconfortáveis. Conseguimos arranjar mil e uma coisas para fazer, quando deveríamos fazer alguma coisa que não nos agrada muito ou para a qual não estamos motivados. Começamos a fazer listas de tarefas e mais tarefas que nos vão manter a mente distraída e longe do problema que a aflige. Procura-se manter a auto-estima através de outros desafios e se possível, sentirmos-nos úteis. Um período de inactividade relança o desconforto e a frustração. 

Mas que mal poderia ter a lista de "coisas a fazer", afinal é razoável pensar que uma boa forma de nos afastar ou colocar em perspectiva as nossas preocupações seria procurando distracções, explorando outras faces, por outro lado é preciso aproveitar o tempo. Aliás a vontade de não fazer nada é normalmente um dos sintomas que caracteriza a depressão. O problema é que é um ciclo vicioso, que condena à exaustão e à fuga do problema real. A capacidade de usufruir das "tarefas/actividades" fica abaixo do desejável. É um jogo que serve apenas para nos enganar, para continuar a fazer uma coisa de que não gostamos ou que nos deixa infeliz. É um mecanismo de defesa que tem um efeito positivo a curto prazo, mas se pode revelar desastroso quando accionado por demasiado tempo.

É bom ficar sem fazer nada de consciência tranquila e mente serena, certamente não é fácil, pois mesmo que o corpo abrande o pensamento corre livre e quase com vontade própria.


sexta-feira, 16 de março de 2012

O ciclo do tempo

De quando em onde, a vida faz-nos regressar a sítios aonde não pensávamos voltar, normalmente por razões diferentes das que lá nos levaram anteriormente. Faz-nos recuperar histórias que pensávamos esquecidas, sentir o espaço de forma diferente. Outras vezes revemos-nos em acontecimentos e situações que nos deixam a nítida sensação de que já passámos por lá, ou como expectador, noutro papel ou porque não no mesmo. Pura coincidência, talvez, ou então apenas ilusão.

Às vezes tenho a sensação que tudo se resume a uma soma de ciclos. A motivação nasce, torna-se objectivo ou plano, consciente ou inconscientemente, vamos para campo, fazemos aquilo que consideramos o nosso melhor esforço possível, avaliamos e saboreamos/sofremos o resultado e partimos para o próximo. A dificuldade está em gerir os diferentes componentes de um ciclo ou mini ciclos que acontecem em simultâneo. É necessário fazer escolhas, definir prioridades, onde vale a pena investir ou não. Também se pode sincronizar tudo, criando uma interdependencia que faz com que as conquistas e falhanços num ciclo tenham repercussões nos restantes, tudo funciona ou fracassa em simultâneo.

Seguindo esta linha de pensamento, é normal que se passe por etapas semelhantes a ciclos anteriores, que agora vemos a uma nova luz, podendo ou não lidar de forma diferente. De tempos em tempos, será necessário regressar a pontos de origem ou pontos de viragem, locais que nos marcaram e influenciaram em determinado sentido, como se fosse uma nova oportunidade que precisamos para recomeçar.