quarta-feira, 11 de abril de 2012

Seres complicados

Ainda não tenho idade para ter problemas com a minha idade. Aliás, gosto de pensar que o passar dos anos me trouxe serenidade, me ensinou a relativizar e me endureceu a carcaça. Estou bem resolvida com isso e aprecio a mudança.

A questão é que tudo tem o seu preço. Passamos de seres indefesos e dependentes de cuidados a adultos autónomos com planos, com encargos, com expectativas, com complicações. Pessoalmente considero as crianças muitos menos complicadas do que a maioria dos adultos. Os anos ensinam a dissimular, a seguir caminhos menos óbvios para atingir os objectivos, a repensar vontades, a ponderar tudo e mais alguma coisa. É inevitável, a autonomia paga-se com responsabilidade, por si e pelos que o rodeiam. As crianças são seres de impulsos, quando querem uma coisa manifestam essa vontade, fazem o plano para a conseguir e com mais ou menos artimanhas não se desviam do objectivo. As crianças são simples na escolha dos amigos, não precisam saber muito sobre o passado, os antecedentes, as crenças ou motivações, saber que querem brincar a mesma coisa chega e sobra para justificar a partilha. A maioria das vezes também não se importam muito com a aparência, se segue ou não as tendências da moda ou se soube conjugar as cores e os cortes. Os miúdos não perdem muito tempo a pensar nos efeitos das suas palavras, são espontâneos e a maioria das vezes sinceros, não têm grandes medos de se magoarem, bem pelo contrario, gostam de experimentar tudo e testar os limites. Quando se chateiam ou se magoam não perdem demasiado tempo com isso, nada que um pedido de desculpas e um abraço não resolva.

Desde tenra idade as boas práticas e regras de convivência e boa educação impingidas às crianças ensinam-lhes a moderar-se, a ter consciência dos outros e dos limites da sua liberdade, mas também se ensina a complicar tudo, a agir em função do efeito pretendido nos outros, a ser mais prudente. As experiências comprovam. É necessário adoptar novas estratégias.

Depois durante uns  tempos, depois de uma adolescência meio turbulenta, levamos-nos demasiado a sério. A vontade de ter controlo sobre as nossa vida e as nossas acções torna-nos menos impulsivos, arriscamos menos, experimentamos ainda menos. O habitual é tão confortável, já está de tal forma moldado aos nossos vícios que achamos que preço dessa segurança não justifica. Somos seres responsáveis, focados, quase sempre empenhados em alguma coisa, basicamente o orgulho de quem nos viu progredir. Habituados a silenciar uma boa parte das nossas necessidades, a mais incomodas e inoportunas, sentimos-nos no caminho, ás vezes realizados outras vezes bem longe disso.

Se tivermos sorte, o tempo também nos ensinará que não vale a pena nos levarmos tão a sério. Baixamos a guarda aqui e ali e afinal não houve nenhuma catástrofe natural. Começamos a questionar a rotina que nos faz tanta falta, mas nos prende a um conjunto de acções e reacções pré-definidas. Afinal há mais mundo para lá da nossa linha do horizonte, porque não. Recuperamos alguma impulsividade dos tempos da ingenuidade. Eventualmente, o estatuto conquistado permitirá uma postura mais relaxada, mais aberta aos possível e improvável. Continuamos a ser seres complicados, mas agora talvez uma pouco mais fieis ao que nos vai na alma e aos que nos rodeiam. Se conseguirmos chegar a este ponto a viagem não será perdida.

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