sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Amor e sobrevivência

Às vezes parece que penso em contra-corrente e fico com a sensação de que me está a escapar algo! Um dos temas em que isso frequentemente me acontece é precisamente o conceito de amor ou relação. É mais do que sabido e badalado a existência de maneiras de pensar diferentes entre o sexo feminino e masculino, o que é perfeitamente compreensível se tivermos em conta a evolução da espécie humana e da maioria dos animais de uma forma geral. Não podemos esquecer que a existência dos animais na terra está intrinsecamente relacionada com a sua capacidade de se reproduzir e passar os seus genes  à descendência. A forma mais eficaz de concretizar este objectivo é obviamente o acasalamento entre animais da mesma espécie. E é precisamente neste ponto que começa divergência, pois enquanto que o trabalho do macho se pode considerar completo ao fim de alguns minutos, a tarefa de carregar a cria ou crias e promover a sua sobrevivência durante o período inicial em que são dependentes cabe, habitualmente à fêmea. Ou seja, de uma forma simples, o processo de reprodução acaba por dar mais trabalho à fêmea, não só porque se torna mais vulnerável a predadores e a doenças durante a gestação, mas também porque acarreta mais esforço e responsabilidade para garantir o sucesso da "operação".  Obviamente que na vida real as coisas não são assim tão simples, nalgumas espécies animais, a única maneira de garantir a sobrevivência das crias até fase adulta implica o envolvimento activo e continuado dos dois progenitores e surge aquilo a poderemos chamar de relação.

Tendo consciência de que os animais selvagens não são propriamente a minha especialidade, neste ponto vou-me direccionar apenas para a espécie humana. Para além do instinto de sobrevivência presente em todos os animais, fomos brindados com a racionalidade, o que nos coloca  num patamar de complexidade ligeiramente superior. Com a racionalidade vem a capacidade de raciocínio, o pensamento organizado, a capacidade de fazer planos a curto e a longo prazo, a capacidade de manipulação e penso eu a capacidade de ter um maior controlo sobre o percurso da nossa vida através de decisões conscientes. Para além disto há ainda o contexto, a influencia da cultura, as nossas experiências e as dos que nos rodeiam. Tudo  isto permite que cada um de nós tenha as mais variadas ideias e convicções acerca das relações, do amor e da melhor forma de transmitir os seus genes (mesmo que de forma inconsciente). Pensando no Homem à luz dos instintos de sobrevivencia animal, é compreensivel a tendência dos homens em procurar sexo e das mulheres em quererem "relações". Obviamente que isto não se aplica a todas as pessoas, nem a todas as fases da vida e muito se podia dizer sobre a mudança do paradigma que se tem vindo a observar nos últimos tempos, mas ficará para outro post. Por outro lado, toda a gente sabe que a relacção sexual e os relacionamentos em si não têm necessariamente de ter em vista a procriação, aliás muitas vezes não têm de todo e não ha mal nenhum nisso, tal como disse é algo dependente das fases da vida.

Onde eu queria chegar é precisamente à diferença que frequentemente encontro entre a minha visão de relacionamento e a dos homens. Parece-me que os homens são demasiado simplistas neste aspecto ou então disfarçam bem. Numa sociedade em que tanto valor se dá à aparência, não sei como é que ainda nos admiramos com a taxa de insucesso nos relacionamentos. Eu sou da opinião que a solidez e saúde de um relacionamento reside nos pormenores, nas pequenas coisas. Não me parece viável quando as duas pessoas não partilham algumas características essenciais. Não me parece possível haver intimidade e confiança quando as pessoas não atingem uma sintonia. Tratasse de ser capaz de comunicar de uma forma que vai para alem das palavras e daquilo que é dito. Não é preciso conhecer uma pessoa à 50 anos para ser capaz de lhe sentir a alma, é sim preciso querer fazê-lo e dar atenção e espaço para o fazer. Quando se chega a este patamar, as coisas adquirem um novo significado, as nossas motivações deixam de ser tão egoístas e passam a ter algo mais. Claro que a componente sexual assume um papel importante no meio disto tudo, mas jamais poderá ser a única motivação. Quando nos dispomos a conhecer e compreender alguém tornamos-nos automaticamente mais tolerantes  e receptivos a novas maneiras de pensar, o que nos permite evoluir enquanto pessoas e enquanto casal. Na minha visão não há barreiras ou limites quanto a raça ou idades, obviamente que estamos sujeitos a um relógio biológico e ás consequências naturais das vivências e do envelhecimento, mas para isso serve a nossa capacidade de aprendizagem e adaptação.

Nos dias que correm, não basta ter filhos para assegurar a passagem dos genes, é necessário promover um ambiente saudável e estimulante para o pleno desenvolvimento dos descendentes e a melhor forma de o fazer, penso que ainda é  com a contribuição de ambos os progenitores, de preferência unidos por uma boa relação.

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