A ideia de viver uma ilusão é algo que me perturba bastante. Sei que nalgumas circunstâncias são quase inevitáveis e a nossa percepção e maneira de estar no mundo são moldados por pequenas doses de ilusão que nos permitem dar sentido a alguns acontecimentos, esperanças ou sentimentos de forma a facilitar a sua gestão. Contudo algumas pessoas levam este conceito demasiado a sério, como me parece ser o caso dos Reborn Baby Dolls. Aconselho verem o video da bbc para terem melhor noção daquilo a que me refiro, caso não saibam de que se trata.
Os reborn custam entre 200 e 500 euros e tornaram-se um sucesso nos Estado Unidos, Brasil e Inglaterra com uma quantidade crescente de mulheres entre os 30 e 50 anos a tratarem deles como se fossem crianças reais. A fantasia pode chegar a vários níveis, havendo pessoas que para além de lhes mudarem a roupa e preparar comida, também os passeiam em carrinhos de bebé ou cadeiras de automóvel adequadas ao efeito. Depois disto já nem me admiro com a quantidade de blogues inteiramente dedicados ao novos "bebés" da família que tanta alegria e amor despoletaram.
O que é que motiva alguém a investir tanto amor e dinheiro num boneco inanimado? Será que não encontram pessoas merecedores e carentes de tal atenção. Duvido. Pois se fosse esse o caso não haveria crianças sem pais, sem amor, sem protecção sem nada. Neste sentido os reborn ganham alguns pontos, uma vez que não choram, não reclamam atenção quando a sua mama não está com disposição ou tempo para tal e não crescem, logo não trazem outros problemas associados ao desenvolvimento infantil e dilemas da adolescência. Por outro lado os reborn parecem-me um pouco monótonos e ingratos, por mais tempo que se espere não vão fazer um sorriso, não vão dar abraços ou beijinhos quando estão contentes, não vão começar a falar, muito menos a andar, não serão capazes de retribuir o amor que lhes foi dedicado. Mas isto seria numa perspectiva mais realista da coisa, porque na ilusão que os envolve tudo pode acontecer. Algumas mulheres admitem a utilização dos reborn para preencher um vazio deixado pelos filhos que cresceram e se emanciparam ou pelos que partiram quando ainda pequenos. Talvez seja uma forma de lidar com algum trauma ou com a solidão, mas mesmo assim continuo a ver mais beneficio em "adoptar" uma pessoa, bebé ou não ou mesmo um animal.
Embora possa ser uma conclusão um pouco abusada, não posso deixar de pensar até que ponto as pessoas não estão a perder a fé nos humanos. A pouco e pouco maquinas e outros objectos vão ganhando terreno em situações que normalmente envolveriam contacto entre pessoas, mas que agora pode ser apenas a pessoa e a maquina. Exemplos disso são a televisão, o computador ou qualquer outra coisa com acesso à web ou não, que nos dão a ilusão de estar acompanhados e pertencer a algo, mesmo que estejamos na mais pura solidão. Sim, um blog, também se enquadra, embora possa servir outros propósitos e se destine a outras pessoas fica muito aquém do contacto real. Estamos a caminhar no sentido do comodismo extremo, aquilo que queremos, à hora que queremos, sem risco de confronto, desilusão ou necessidades adicionais, apenas nós e a nossa ilusão.
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