terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Coisas da mémoria

Detesto quando estou quase a chegar a casa e sou assombrada pela incerteza de ter ou não trancado o carro, ou apagado as luzes. Faço uma reconstrução mental do percurso, mas não me lembro de quase nada, nem sequer da viagem até ao estacionamento. Na duvida volto para trás, mais vale prevenir, pois ainda tenho memória fresca do dia em que tentaram assaltar o carro ou das vezes em que ficou com as luzes ligadas, suspeito que a bateria não me perdoaria mais uma vez.

Nunca foi boa a História, não que não achasse interessante, mas porque não tenho jeito nenhum para decorar datas ou nomes ou coisas desse género. Talvez seja de família ou então eu seja demasiado despistada para essas coisas. Por outro lado lembro-me com bastante pormenor do dia em decidi cortar o meu cabelo, tinha eu 4 anos e da dificuldade que tive a convencer a educadora de infância de que tinha sido a minha irmã, lembro-me exactamente do que me passou pela cabeça na primeira vez que andei de bicicleta e percebi que não tinha travão mesmo a meio da descida.

Temos essencialmente dois tipos de memória: a curto e a longo prazo. A memória a curto prazo permite-nos lembrar de que forma começou esta frase, de que é que estamos a falar, permite desempenhar tarefas sem que nos esqueçamos do que é que começamos a fazer. Tem prazo de validade variável e pode ou não passar para uma forma mais duradoura, a longo prazo. Estas ultimas provocam alterações físicas nos neurónios, fazem associações que memorias pré-existentes, permitem-nos guardar recordações de uma vida inteira.


A maneira como processamos os acontecimentos e os guardamos, ou não, na memória sempre me fascinou. Podemos exercitar a memoria ou arranjar formas de memorizar determinada informação (mnemónicas) mas uma boa parte do processo de memorização ou consolidação da memoria acontece no intimo do nosso cérebro de forma inconsciente e muita vezes potenciado pelas emoções. Esta consolidação dá-se principalmente durante o sono, é como se rebobinássemos um filme e voltássemos a ver, vezes e vezes sem conta. As emoções que acompanham os acontecimentos servem de sinalizador para o cérebro saber que importância deverá atribuir a determinada informação. Se foi algo que nos magoou ou que pôs em risco o nosso bem estar, mais vale ficar registado para que se possa evitar em situações semelhantes no futuro, se por outro lado nos deu prazer, também convém saber para procurarmos esse tipo de estimulo nas devidas alturas. Não é de estranhar a importância que a nossa memória tem na maneira como lidamos com o dia a dia, na nossa maneira de ser ou personalidade. Ela serve para isso mesmo, para que não façamos o mesmo erro vezes e vezes sem conta, para que tenhamos a reacção mais adequada possível a uma situação semelhante a algo que já se passou. Permite-nos criar uma identidade, ficar agradecido ou magoado, saber se gostamos ou não de chocolate.



Embora tenhamos uma grande capacidade de memorizar acontecimentos, essa capacidade não é ilimitada e ao longo da vida vão se arrumando e desvanecendo algumas memórias. Mudam-se de gavetas, empurram-se mais para o fundo ou deixam-se simplesmente perder, no meio de tantas outras. Afinal não interessa saber a cor das calças no dia em que fui sozinha para a escola pela primeira vez. Algumas memórias desvanecem e fica apenas um gosto doce ou amargo daquilo que foi. Não me lembro precisamente do que aconteceu, mas lembro-me que fui feliz, que gostava de estar lá. Não me lembro do nome do professor, mas lembro-me que me ensinou a gostar de geografia. Algumas memorias sobrepõem-se simplesmente a outras que lá havia. Desde que decorei o novo numero da minha irmã não me consigo lembrar do antigo. Outras vão ficando mais suaves, menos dolorosas, como se fizéssemos as pazes com o que aconteceu. O nosso cérebro tem aquilo a que eu chamo, uma boa capacidade de selecção natural ou mecanismo anti-trauma. Com o passar do tempo as emoções que acompanham a memoria perdem intensidade, os acontecimentos perdem relevância, deixam de ser importantes.  Temos tendência para guardar os bons momentos, para relativizar e suavizar os acontecimentos que nos causam dor, é como se as memórias fossem manipuladas para um estado que nos deixe mais confortáveis. Claro que o magoou também fica, mas a memória vai suavizando o que sentimos em relação aos acontecimentos, nalguns casos até parece que lhes muda o sabor. Pode também acontecer o contrário e há medida que relembramos um acontecimento acrescentamos uma maior carga negativa, mais dramatismo à historia, a versão contada passa a ser pior do que o que realmente aconteceu.
Uma aplicação prática deste fenómeno é o caso das testemunhas de um crime em tribunal, afinal aquilo que é jurado ter acontecido ou visto pode não ter sido bem assim. Num contexto menos dramático vê-se nas discussões entres casais, familiares ou amigos. Alguns anos depois parece que os acontecimentos guardados na memória ganharam uma nova dimensão. Pelo lado mais positivo ficam as historias de vidas que vamos contando vezes e vezes sem conta.


A memória não é perfeita na medida em que nos permite lembrar de tudo. Isso seria mais confuso do que útil, afinal a capacidade de esquecer é que nos permite manter o equilíbrio, tornando-a perfeita para que consigamos continuar a viver e a acreditar. A experiência diz-nos quando e onde devemos fugir ou ficar, o que nos fez bem e devemos procurar, diz-nos a que sabe o sol de inverno na face, um mergulho no mar ou um abraço.

Sem comentários:

Enviar um comentário