É fácil não repararmos nas coisas quando não estamos a procura delas. Acontece vezes sem conta com mais ou menos gravidade, mas é algo inerente à nossa capacidade de prestar atenção ao que nos rodeia. Uma boa parte do processamento da informação que nos chega através dos sentidos é feita de forma inconsciente e desde que despertamos os nossos sentidos são bombardeados com grandes quantidades de informação, sons, cheiros, imagens, e outras sensações que a nossa mente não consegue simplesmente processar na totalidade. A tarefa torna-se ainda mais difícil quando estamos a aceder a memórias, a fazer algum tipo de raciocínio ou preocupados com alguma coisa. Temos capacidades limitadas e a tendência é para nos focarmos no que consideramos mais importante ou no mais apelativo, ou seja a atenção que damos a algo faz com que se processe mais informação acerca do alvo enquanto se negligência o envolvente. Há vários estudos sobre o assunto e o teste deste vídeo ilustra bem esta ideia.
Esta capacidade permite-nos manter minimamente focados no nosso dia a dia, contudo uma boa parte da informação é simplesmente perdida, não registada, nem recordada, ficamos insensíveis à informação que não chega ao nosso consciente. Este fenómeno explica a razão pela qual nos conseguimos concentrar no meio do barulho, porque não ouvimos o que nos dizem enquanto escrevemos mensagens ou porque acontecem erros nos hospitais, nas fábricas, nos bancos em qualquer sitio onde o Homem esteja. É uma capacidade humana e está na base de erros humanos. Quanto mais exigente a acção que estivermos a desempenhar ou mais atenção lhe estivermos a dedicar, mais cegos ficamos para o resto do mundo.
Esta noção de limite e direcionamento da atenção leva-me a pensar no enviesamento a que fica sujeita a percepção da realidade, ou seja, temos tendência para ver melhor aquilo que estamos predispostos a encontrar. Já não me estou a referir a trabalhar no local com barulho, mas sim à leitura que fazemos do dia a dia, da interacção com os outros e dos acontecimentos em si. Deve ter sido daí que surgiu a ideia de pensar fora da caixa ou o ditado que diz que só encontra a sorte quem a procura ou ainda que só se ouve o que convém. Em determinadas circunstâncias devemos ficar de tal forma "programados" para ver, interpretar determinadas coisas que ficamos super sensíveis a esses estímulos, mas esquecemos o resto, perdemos informação, perdemos oportunidades. Ás vezes é necessário afastar durante alguns momentos para conseguir ver o panorama na sua totalidade ou pelo menos com visão/percepção mais alargada, para ver para além do trabalho, para além do interesse imediato. É bom sair á rua com vontade de sentir tudo, obviamente que isso não é possível, mas pelo menos não reparamos só no carro estacionado há dois dias, no semáforo, na montra sem interesse, nos paralelos molhados. Claro que há alturas em que focar as atenções é essencial, mas quando não o é sou apologista do não formatado, não vá a sorte estar lá e passar despercebida.
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